ARTIGO DE OPINIÃO/ Renata Vasconcellos diante de Bolsonaro e Lula: quando a régua do jornalismo merece ser questionada

Por Julliana Cardoso
Há cenas do jornalismo político que permanecem na memória do público porque ultrapassam o momento em que aconteceram. Algumas delas ganham ainda mais força quando colocadas lado a lado, especialmente quando envolvem a maneira como jornalistas reagem diante de diferentes personagens da política brasileira.
É o caso de dois episódios envolvendo Renata Vasconcellos. Um deles aconteceu em 2018, durante a sabatina de Jair Bolsonaro no Jornal Nacional. O outro ocorreu anos depois, durante uma entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva.
Em 2018, Bolsonaro foi questionado por Renata sobre a diferença salarial entre homens e mulheres. Durante a resposta, o então candidato mencionou a própria bancada do telejornal e afirmou que poderia existir diferença entre o salário de William Bonner e o da jornalista.
Renata reagiu imediatamente. A jornalista afirmou que jamais aceitaria receber menos do que um homem que exercesse as mesmas funções e tivesse as mesmas atribuições.
A resposta foi firme. Renata não deixou a observação passar e fez questão de estabelecer sua posição diante do candidato.
Anos depois, entretanto, outro episódio chama atenção.
Durante uma sabatina com Lula, Renata fazia uma pergunta sobre a dívida pública quando o presidente decidiu questionar a maneira como ela havia formulado o questionamento. Lula afirmou que esperava que uma jornalista da qualidade e da competência dela pudesse fazer aquela pergunta de outra forma.
A pergunta que fica é simples: onde estava a mesma firmeza?
Quando Bolsonaro fez uma observação que envolvia diretamente sua condição profissional, Renata reagiu de maneira imediata e contundente. Quando Lula questionou a qualidade e a competência da jornalista na condução de uma pergunta, a reação não teve a mesma intensidade.
E é justamente essa diferença que merece ser discutida.
Durante anos, o debate público foi marcado por discursos sobre misoginia, machismo, igualdade e respeito à capacidade profissional das mulheres. A imprensa, inclusive, teve papel importante na ampliação dessa discussão.
Mas princípios não podem depender de quem está do outro lado.
Se uma fala de Bolsonaro pode provocar uma reação firme quando uma mulher entende que sua capacidade ou seu tratamento profissional está sendo colocado em questão, por que uma fala semelhante, ainda que em outro contexto, feita por Lula não provocaria o mesmo tipo de reação?
Essa não é uma defesa de Bolsonaro. É uma cobrança de coerência.
Porque, se existe uma régua para avaliar o comportamento de políticos, essa régua também precisa estar disponível para avaliar o comportamento da própria imprensa.
O jornalista tem todo o direito de fazer perguntas difíceis. Aliás, deve fazê-las. Políticos não estão acima de questionamentos, independentemente do partido ou da ideologia.
Mas jornalistas também não estão acima de questionamentos.
Quando Lula diz a uma jornalista que esperava mais de sua qualidade e competência profissional, isso também merece ser observado. Afinal, se a imprensa considera inadequado que políticos tentem constranger jornalistas ou interferir na maneira como eles trabalham, o mesmo princípio deveria valer para qualquer político.
O que incomoda não é Lula ter discordado da pergunta. Políticos podem discordar. O que chama atenção é a diferença de reação diante de situações que envolvem diretamente a profissional.
É justamente aí que entra a discussão sobre coerência.
Não se trata de atacar Renata Vasconcellos. Trata-se de lembrar que a credibilidade do jornalismo também passa pela capacidade de aplicar os mesmos princípios independentemente de simpatias políticas.
A imprensa tem o dever de fiscalizar o poder.
Mas também precisa aceitar ser fiscalizada pela sociedade.
E talvez a pergunta mais importante seja justamente esta:
Se a mesma fala sobre competência profissional tivesse partido de Jair Bolsonaro, a reação de Renata Vasconcellos teria sido igual?
Não cabe a mim responder por ela.
Cabe ao público observar os dois momentos e tirar suas próprias conclusões.
Porque, no jornalismo e na política, coerência não deveria ter lado.




