
Mudança anunciada após a eleição coincide com forte turbulência na Bolsa e alta dos juros futuros. Santander também entra no radar de compradores e corretores, mas não há confirmação de que o banco tenha adotado o mesmo reajuste.
A compra da casa própria pode ficar mais difícil para os brasileiros em um cenário de juros elevados e incerteza econômica. Na segunda-feira, 26 de outubro, um dia após Lula (PT) vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, o Bradesco atualizou as condições de seu financiamento imobiliário, com taxas de 15% ao ano mais Taxa Referencial (TR) em determinadas modalidades residenciais. Para a aquisição de terrenos urbanos, o percentual divulgado chega a 18,5% ao ano mais TR.
A mudança ganhou repercussão nas redes sociais, onde corretores e profissionais do mercado imobiliário passaram a alertar para o impacto do crédito mais caro sobre as prestações e a aprovação de financiamentos. O Santander também aparece nas discussões entre compradores e profissionais do setor, mas é necessário distinguir as informações: até o momento, não foi possível confirmar um reajuste equivalente do Santander anunciado após a eleição.
A coincidência entre a atualização do Bradesco e o resultado eleitoral chamou atenção porque a segunda-feira foi marcada por uma forte reação dos mercados financeiros. A Bolsa brasileira registrou queda expressiva, o dólar disparou e os juros futuros subiram, em um movimento associado à revisão das expectativas dos investidores sobre o cenário político e econômico.
Parte do mercado financeiro esperava uma vitória da oposição, representada por Flávio Bolsonaro. Com a vitória de Lula, investidores reavaliaram suas perspectivas, especialmente em relação à política fiscal, ao endividamento público e ao comportamento dos juros.
O contexto é relevante, mas exige precisão jornalística: o Bradesco atribuiu a revisão de suas condições às circunstâncias do mercado financeiro e ao custo de captação. Não há comprovação de que a eleição, isoladamente, tenha provocado a decisão do banco.
Ainda assim, o momento reforça uma preocupação concreta para o consumidor: quando o custo do dinheiro sobe, o financiamento imobiliário pode ficar mais caro e reduzir a capacidade de compra das famílias.
Bradesco atualiza as condições de financiamento
A nova tabela divulgada pelo Bradesco estabelece condições diferentes conforme o perfil do cliente e a modalidade contratada.
Para determinadas categorias de clientes que buscam financiamento residencial, os juros partem de 15% ao ano mais TR. No segmento Private, a taxa divulgada é de 13,60% ao ano mais TR.
Nas operações para imóveis comerciais e pessoas jurídicas, o percentual chega a 16,50% ao ano mais TR. Para a aquisição de terrenos urbanos, a taxa divulgada alcança 18,50% ao ano mais TR.
Os números não significam que todos os financiamentos residenciais estejam sendo oferecidos a 18,5%. A taxa mais alta se refere à modalidade de aquisição de terrenos urbanos.
Também é importante observar que a taxa nominal não representa necessariamente o custo total da operação. Seguros, tarifas e outros encargos podem elevar o valor efetivamente pago pelo comprador.
E o Santander? O que está confirmado
O Santander também é citado nas discussões sobre financiamento imobiliário, mas os números precisam ser analisados com cuidado.
Em janeiro de 2026, informações publicadas pelo portal especializado Portas apontavam que o Santander oferecia financiamento residencial com taxas a partir de 11,79% ao ano mais TR. Essa referência é anterior à mudança anunciada pelo Bradesco em outubro e não comprova as condições atualmente disponíveis.
Até o fechamento desta apuração, não foi localizada confirmação confiável de que o Santander tenha anunciado, após o resultado eleitoral de 25 de outubro, uma elevação equivalente para 15% ao ano ou uma taxa residencial de 18%.
Isso não significa que nenhum cliente possa receber uma proposta com juros mais altos. As condições variam conforme o perfil, a modalidade, a entrada, o prazo e a análise de crédito. Para afirmar que houve um reajuste geral do Santander, porém, é necessário ter acesso a uma comunicação oficial atualizada ou a propostas comparáveis que comprovem a mudança.
O mesmo cuidado vale para os demais bancos. A decisão de uma instituição não permite concluir automaticamente que todo o sistema financeiro adotará a mesma tabela.
A eleição e a reação do mercado financeiro
A atualização do Bradesco ocorreu em um dia de forte instabilidade nos mercados. Na segunda-feira, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, enquanto o dólar subiu mais de 8%. Os juros futuros também avançaram.
Esses movimentos refletem a mudança nas expectativas dos investidores diante do resultado eleitoral e das perspectivas para a economia brasileira. Entre os fatores observados pelo mercado estão a condução das contas públicas, a trajetória da dívida, a inflação e a possibilidade de redução dos juros no futuro.
Parte dos investidores havia se posicionado considerando a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro. O resultado favorável a Lula provocou uma revisão dessas expectativas e contribuiu para a turbulência financeira registrada no pregão.
Os juros futuros merecem atenção especial porque ajudam a determinar o custo de operações de longo prazo. Quando sobem, podem encarecer a captação de recursos e pressionar as condições oferecidas em financiamentos, inclusive os imobiliários.
Isso não significa que a eleição seja o único fator responsável pelas taxas bancárias. A política monetária, a inflação, o custo de captação, o risco de crédito e a estratégia comercial de cada instituição também influenciam as condições dos empréstimos.
A questão central é que a instabilidade financeira pode chegar à economia real, afetando decisões de compra, investimentos e o planejamento das famílias.
Goiânia pode sentir os efeitos do crédito mais caro
O cenário preocupa especialmente em Goiânia, que atravessa um período de forte atividade imobiliária, com aumento das vendas e valorização dos imóveis.
Dados da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), com base em levantamento da Brain Inteligência Estratégica, mostram que a capital comercializou 7.219 unidades residenciais no primeiro semestre de 2026. O resultado representa crescimento de 42% em relação ao mesmo período de 2025 e foi o maior volume semestral da série histórica citada pela entidade.
O preço médio residencial chegou a R$ 11.681 por metro quadrado, depois de uma valorização acumulada de 105% desde 2021. Naquele ano, o indicador era de R$ 5.687 por metro quadrado.
Os dados mostram a força da demanda imobiliária em Goiânia, mas também ajudam a dimensionar o desafio para quem depende de financiamento. Com imóveis mais caros, o aumento dos juros pode elevar as prestações e exigir uma renda maior para a aprovação bancária.
Uma família que conseguia financiar determinado imóvel pode precisar buscar uma unidade mais barata, aumentar a entrada ou adiar a compra. O impacto tende a ser particularmente relevante para quem está adquirindo o primeiro imóvel e possui pouca margem no orçamento.
O desempenho positivo do mercado no primeiro semestre não garante que o ritmo será mantido diante de novas condições de crédito. Para medir os efeitos da mudança, será necessário acompanhar as vendas, os lançamentos e as concessões de financiamento nos próximos meses.
Juros mais altos podem reduzir o poder de compra
O efeito de uma taxa maior pode ser significativo mesmo quando o valor financiado permanece o mesmo.
Considere uma simulação ilustrativa de R$ 300 mil financiados em 30 anos, com parcelas calculadas pelo sistema Price. Sem incluir TR, seguros, tarifas ou outros encargos, uma taxa de 10% ao ano produziria uma prestação teórica próxima de R$ 2.530 mensais.
Com juros de 15% ao ano, a prestação subiria para aproximadamente R$ 3.790. A diferença seria de cerca de R$ 1.260 por mês.
Trata-se de uma simulação matemática, não de uma proposta comercial de banco. Os valores reais dependem do sistema de amortização, da taxa efetiva, dos indexadores e dos encargos contratuais.
Ainda assim, o exemplo demonstra como uma alteração nos juros pode mudar a viabilidade da compra. O comprador não avalia apenas o preço do imóvel: precisa comprovar renda suficiente para pagar as prestações e atender aos critérios da instituição financeira.
Corretores e imobiliárias podem enfrentar negociações mais difíceis
O financiamento é parte decisiva da negociação de muitos imóveis. Quando as condições bancárias mudam, propostas feitas anteriormente podem deixar de caber no orçamento do comprador.
Corretores podem precisar refazer simulações, rever o valor dos imóveis apresentados e explicar aos clientes as diferenças entre taxa nominal, custo efetivo total e correção pela TR.
Também pode aumentar a procura por imóveis de menor valor, unidades usadas, bairros mais afastados das áreas valorizadas ou alternativas de pagamento oferecidas diretamente pelas incorporadoras.
Essas possibilidades não significam que as vendas já tenham caído em Goiânia. O mercado local apresentou crescimento expressivo no primeiro semestre, e os próximos indicadores serão importantes para identificar se o crédito mais caro provocará desaceleração.
O impacto pode chegar às construtoras
O crédito influencia tanto a compra do imóvel pronto quanto o financiamento da produção, a aquisição de terrenos e a execução de novos empreendimentos.
Caso uma parcela dos compradores perca capacidade de financiamento, construtoras e incorporadoras poderão enfrentar maior dificuldade para vender determinados produtos. Dependendo do segmento, isso pode levar a mudanças nas condições comerciais, no ritmo de lançamentos ou nas alternativas de pagamento.
O efeito, entretanto, não é automático. A demanda habitacional, a oferta de imóveis, os custos de construção e as condições econômicas locais também interferem nos resultados. Será necessário observar os dados dos próximos meses antes de afirmar que houve redução efetiva nas vendas ou cancelamento de projetos em Goiânia.
O que o comprador deve fazer antes de fechar negócio
Diante da possibilidade de mudanças nas condições de crédito, o comprador deve solicitar simulações atualizadas em diferentes instituições e comparar o Custo Efetivo Total (CET), que considera os encargos da operação.
Também é importante verificar se a taxa é fixa ou se o contrato está sujeito à TR ou a outro indexador, avaliar o comprometimento da renda e manter uma reserva financeira para imprevistos.
No caso do Santander e dos demais bancos, a orientação é confirmar diretamente as condições disponíveis para o perfil do cliente. Uma taxa divulgada em uma reportagem ou em uma publicação nas redes sociais não garante que o mesmo percentual será oferecido a todos os compradores.
O mercado imobiliário entra em período de atenção
A atualização das condições do Bradesco ocorreu um dia após a vitória de Lula e em meio a uma forte turbulência nos mercados financeiros. A proximidade entre os acontecimentos ampliou o debate sobre os possíveis reflexos do cenário político e fiscal no custo do crédito.
Em Goiânia, onde as vendas residenciais cresceram 42% no primeiro semestre e o preço médio do metro quadrado chegou a R$ 11.681, um financiamento mais caro pode dificultar o acesso à casa própria, especialmente para famílias que dependem do crédito bancário.
A mudança anunciada pelo Bradesco está documentada. Já a extensão do reajuste ao Santander e aos demais bancos precisa ser confirmada individualmente, sem transformar comentários de corretores ou publicações nas redes sociais em decisões oficiais das instituições.
O próximo passo será acompanhar a evolução das taxas, as condições efetivamente oferecidas pelos bancos e os indicadores de vendas. Para quem pretende comprar um imóvel, a combinação de preços elevados e juros altos torna ainda mais importante calcular o custo total do financiamento antes de assumir um compromisso de longo prazo.




