
Durante o último mês de março, projeto que utiliza história em quadrinhos distribuiu 20.250 exemplares e envolveu mais de 8 mil alunos e professores em 50 atividades presenciais. Ações também englobam mulheres da agricultura familiar
Ao longo do último mês, o projeto Maria da Penha nas Escolas percorreu mais de 3.000 km em Goiás, com a realização de 50 ações em escolas e distribuição de mais de 20 mil exemplares do livro em quadrinhos. No total, 12 cidades goianas do interior e Região Metropolitana de Goiânia fizeram parte da caravana de educação sobre as formas de violência contra a mulher. Lançado em 2016, e idealizado pela pesquisadora e gestora de projetos Manoela Barbosa, o projeto utiliza literatura infantil em quadrinhos para conscientizar crianças e já distribuiu mais de 65 mil exemplares em 77 cidades de cinco estados brasileiros.
O livro em quadrinhos que tem como público crianças a partir de 10 anos traz a história da farmacêutica cearense que deu nome à Lei e se tornou símbolo na luta contra a violência. Além da versão colorida para alunos e profissionais de Educação, o projeto conta com uma versão do livro em tamanho ampliado e braille para pessoas com deficiência visual. Em 2026, o projeto é realizado com recursos do Programa Goyazes 2025 do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e patrocínio da Equatorial Energia. A Viação Carvalho foi responsável pela logística de transporte.
Ao longo do mês de março a caravana passou pelas seguintes cidades: Bela Vista de Goiás, Goiás, Iporá, Matrinchã, Porangatu, Cocalzinho, Goianésia, Aparecida de Goiânia, Orizona, Silvânia, São Miguel do Passa Quatro e Senador Canedo. Além de escolas, também foram realizadas palestras com mulheres da agricultura familiar. No total, pelo menos 8 mil pessoas foram atingidas presencialmente pelas ações e no total, em parceria com os municípios, houve a distribuição de 20.250 exemplares, que alcançaram exponencialmente 4 vezes mais pessoas, quando inseridos nos lares e famílias.
Idealizadora da Skambau Produções, que realiza o Projeto Maria da Penha nas Escolas, Manoela Barbosa afirma que a sensação se divide em dever cumprido e também um grande peso de responsabilidade por todo esse trabalho. “O que acompanhamos ao longo de todas essas cidades, escolas, palestras é uma juventude mais consciente que se forma. A interação dos meninos e meninas é muito valiosa. Tudo isso é muito especial. É uma transformação sendo construída. Mas também temos muitas histórias compartilhadas. Ora verbalmente, ora por olhares, cabeças baixas, choro. Sabemos que ali na plateia, de alunos, professores, mulheres e crianças, há, infelizmente, muitas vítimas. Crianças que talvez descubram, durante a ação, que a violência ocorre em suas casas. É um trabalho feito com muito cuidado e que não acaba na nossa visita”, completa.
Patrícia Silva, pedagoga e palestrante do projeto, também participou da caravana e esteve à frente de inúmeras ações. Ela ressalta a importância não apenas das palestras, mas da rede de enfrentamento à violência e da necessidade dos municípios darem continuidade às atividades. “Capacitamos professores, coordenadores e iniciamos uma conversa com os alunos. Mas esse é um trabalho contínuo, diário, necessário e que se faz a muitas mãos. Sabemos que nossa passagem é, muitas vezes, o início de um projeto que precisa durar e que pode salvar muitas vidas não só na atualidade, mas na transformação de toda uma geração que virá”, acrescenta.
Conteúdo será obrigatório
No último dia 25 de março, os ministérios da Educação (MEC) e das Mulheres assinaram a portaria de regulamentação da Lei Maria da Penha Vai à Escola (nº 14.164/2021), para incluir conteúdo sobre a prevenção a todas as formas de violência contra crianças, adolescentes e mulheres nos currículos da educação básica. A lei determina que a produção de material didático relativo aos direitos humanos e à prevenção da violência contra a mulher deve ser adequada a cada nível de ensino. O trabalho, já feito pelo projeto goiano, agora será realidade nacional.
Manoela reforça a importância de falar sobre violência contra a mulher e de realizar as ações com crianças, adolescentes, com professores e também com mulheres da agricultura familiar. “Apenas no primeiro semestre de 2025, o Mapa da Violência apontou uma média de 187 estupros por dia no Brasil. Além disso, foram mais de 1.400 casos de feminicídio segundo o Mapa da Segurança Pública de 2025. São pelo menos quatro mulheres mortas por dia. Os números são crescentes e alarmantes”, completa.
Em todo o país, 71% das agressões ocorreram na frente de outras pessoas, incluindo crianças. As vítimas, por sua vez, são em maioria, mulheres jovens com idades entre 25 e 34 anos (21%). Além disso, a maior parte dos casos de feminicídio (64,3%) ocorreu dentro de casa. “Levar essa discussão para as escolas é possibilitar que essas crianças e jovens aprendam, desde cedo, a identificar o que é violência e quem sabe proporcionar um futuro diferente para cada uma delas. Estamos ensinando para as meninas os sinais de alerta e as formas de buscar ajuda e buscando informar e educar os meninos para que eles não se tornem agressores. Essa é uma tarefa coletiva, é uma política pública necessária e urgente”, acrescenta Manoela.
Goiás no 6º lugar do ranking nacional
Em Goiás, 60 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 colocando o Estado na 6ª posição nacional quando se trata desse tipo de crime. O Painel Interativo de Violência Contra a Mulher do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) registrou em Goiás 55,6 mil novos processos relacionados à violência contra a mulher em 2025. Os dados que são de janeiro a novembro já ultrapassavam os 50 mil casos de 2024. No mesmo período, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 – recebeu 10.297 denúncias e pedidos de orientação.




